Campos, Riva e Pinheiro: a eleição que colocou fim a décadas de sucessão política em MT
A eleição de 2026 produziu uma imagem que, até pouco tempo atrás, parecia improvável em Mato Grosso: os sobrenomes Campos, Riva e Pinheiro

A eleição de 2026 produziu uma imagem que, até pouco tempo atrás, parecia improvável em Mato Grosso: os sobrenomes Campos, Riva e Pinheiro, que atravessaram gerações e ocuparam alguns dos principais espaços de poder do Estado, chegarão a 2027 sem um representante eleito em exercício.
Não se trata do desaparecimento dessas famílias da vida política. Elas continuam tendo história, relações, influência e capacidade de articulação. O que as urnas produziram foi algo diferente e mais concreto: o fim da presença institucional contínua desses grupos nos principais cargos eletivos do Estado.
A mudança é especialmente simbólica porque não aconteceu em uma eleição isolada. Ela veio depois de décadas de presença.
Em 2026, Júlio Campos não conseguiu renovar o mandato de deputado estadual; Janaina Riva perdeu a disputa pelo Senado e Jéssica Riva não conseguiu uma cadeira na Assembleia; e Emanuelzinho não conquistou o terceiro mandato consecutivo para a Câmara dos Deputados.
O resultado coloca em xeque uma característica histórica da política mato-grossense: a transferência de capital político de uma geração para outra.
Campos: mais de cinco décadas depois, a cadeira fica vazia
Entre as três famílias, talvez nenhuma tenha uma trajetória eleitoral tão longa quanto os Campos.
A história recente do grupo está profundamente ligada a Várzea Grande.
Júlio Campos foi eleito prefeito do município em 1972. Depois, passou pela Câmara dos Deputados, governou Mato Grosso, voltou à Câmara, foi senador e, décadas mais tarde, retornou à política como deputado federal e deputado estadual. A própria biografia parlamentar registra uma trajetória que atravessou diferentes cargos e períodos da política nacional e estadual.
O irmão, Jayme Campos, também percorreu praticamente todo o caminho do poder institucional: prefeito de Várzea Grande, governador de Mato Grosso e senador da República.
Durante décadas, os dois irmãos ocuparam simultaneamente ou alternadamente posições de destaque.
Em 2026, entretanto, a engrenagem parou.
Jayme não disputou a eleição deste ano e seu atual mandato no Senado termina em fevereiro de 2027. Júlio, por sua vez, tentou permanecer na Assembleia Legislativa, mas recebeu 18.512 votos e não conseguiu uma das 24 cadeiras.
O resultado significa que, a partir de 2027, os Campos não terão representante com mandato eletivo em Mato Grosso.
É o encerramento de um ciclo iniciado em 1972.
Mas há uma ressalva importante: fim de mandato não significa fim de influência.
Famílias com décadas de presença política não desaparecem de uma hora para outra. O que desaparece é a cadeira.
Riva: de José a Janaina, uma sucessão que terminou nas urnas
A história dos Riva tem outra característica.
José Riva transformou a Assembleia Legislativa em seu principal espaço de atuação. Ele foi eleito deputado estadual em 1994 e permaneceu no Legislativo por aproximadamente duas décadas, ocupando em diferentes períodos a Presidência e a Primeira-Secretaria da Casa.
Em 2014, quando José Riva deixou de disputar eleições, sua filha Janaina assumiu o espaço eleitoral da família.
A transição foi praticamente imediata.
Em 2015, Janaina tomou posse como deputada estadual e permaneceu na Assembleia por três legislaturas. Em 2018 e 2022, foi a deputada estadual mais votada de Mato Grosso.
Em 2026, entretanto, a estratégia era mais ambiciosa.
Janaina deixou a disputa pela Assembleia para tentar o Senado. Ao mesmo tempo, sua irmã, Jéssica Riva, tentou ocupar a cadeira que seria deixada pela irmã.
Nenhuma das duas conseguiu.
Janaina terminou a disputa pelo Senado em terceiro lugar, com 519.434 votos, 14,53% dos votos válidos. Mauro Mendes e Zé Medeiros ficaram com as duas vagas.
Jéssica, por sua vez, não conseguiu entrar entre os 24 deputados estaduais eleitos.
Assim, a sequência iniciada por José Riva em 1994 chega ao fim.
É a primeira vez desde aquela eleição que a família não terá um representante eleito no poder estadual mato-grossense.
O sobrenome que já foi uma força eleitoral
A trajetória de Janaina torna o resultado ainda mais significativo.
Ela não chegou à disputa de 2026 como uma candidata desconhecida.
Tinha três mandatos, duas eleições como deputada estadual mais votada e uma estrutura política construída ao longo de mais de uma década.
Mesmo assim, a tentativa de transformar a força estadual em uma vaga no Senado não se concretizou.
A derrota também interrompe a lógica de sucessão que marcou os Riva.
José Riva passou o bastão para Janaina.
Em 2026, Janaina tentou passar o espaço da Assembleia para Jéssica enquanto buscava um cargo nacional.
As duas pontas da estratégia falharam.
O resultado mostra um dos limites das chamadas dinastias políticas: o sobrenome pode abrir uma porta, mas não garante que o eleitor atravesse por ela.
Pinheiro: três gerações e o fim da cadeira em Brasília
A família Pinheiro chegou a 2026 carregando uma história que atravessa três gerações.
O primeiro Emanuel Pinheiro da Silva Primo foi deputado estadual, presidiu a Assembleia Legislativa e chegou à Câmara dos Deputados. Ele morreu em 1974, quando buscava a reeleição.
Décadas depois, seu filho, Emanuel Pinheiro, retomou a trajetória política da família.
Foi vereador de Cuiabá, deputado estadual por quatro mandatos e prefeito da Capital por dois mandatos, entre 2017 e 2024.
A terceira geração chegou com Emanuelzinho.
Ele foi eleito deputado federal pela primeira vez em 2018, aos 23 anos, e conseguiu a reeleição em 2022. A Câmara dos Deputados registra seus dois mandatos consecutivos, primeiro pelo PTB e depois pelo MDB.
Em 2026, porém, a sequência foi interrompida.
Emanuelzinho não conseguiu uma das oito vagas destinadas a Mato Grosso na Câmara.
Com isso, a família Pinheiro perde a representação eleitoral direta no Congresso a partir da próxima legislatura.
O que mudou no eleitor?
É justamente aqui que a eleição de 2026 merece ser analisada para além dos nomes derrotados.
O eleitor mato-grossense não simplesmente “apagou” essas famílias.
Ele mudou as escolhas.
E a mudança ocorreu em diferentes disputas.
No Senado, Mauro Mendes e Zé Medeiros foram eleitos, enquanto Janaina Riva ficou em terceiro.
Na Assembleia, Júlio Campos não conseguiu retornar.
Na Câmara Federal, Emanuelzinho ficou fora.
O resultado aponta para uma renovação que não pode ser explicada apenas pela idade dos políticos ou pelo desgaste de um determinado sobrenome.
Há também uma transformação na maneira como se constrói uma candidatura.
O fim do voto automático
Durante muito tempo, em determinadas regiões, o sobrenome funcionava como uma espécie de atalho eleitoral.
O eleitor conhecia a família.
Conhecia o pai.
Conhecia o irmão.
Conhecia o grupo político.
Conhecia os aliados.
Conhecia a história.
Isso criava uma espécie de patrimônio eleitoral que podia ser transmitido entre gerações.
Mas a política mudou.
As redes sociais fragmentaram a comunicação.
Novas lideranças passaram a disputar diretamente a atenção do eleitor.
A identificação ideológica ganhou peso.
O eleitor passou a receber diariamente discursos, vídeos, ataques, respostas e posicionamentos de candidatos que antes dependiam quase exclusivamente de televisão, rádio, eventos e estruturas municipais.
Nesse ambiente, o sobrenome tradicional deixou de ser suficiente.
Não é a primeira vez que uma dinastia perde espaço
A história dos Campos mostra que ciclos políticos também sofrem interrupções.
A própria família já enfrentou períodos em que ficou sem mandato e posteriormente retornou à disputa eleitoral. Júlio Campos, por exemplo, ficou anos afastado das urnas antes de retornar à Câmara dos Deputados em 2010 e depois à Assembleia Legislativa em 2022.
Por isso, seria precipitado afirmar que Campos, Riva ou Pinheiro estão definitivamente fora da política.
A palavra mais adequada talvez seja outra:
intervalo.
A política é dinâmica.
Um grupo pode perder uma eleição e voltar na seguinte.
Pode apoiar outro candidato.
Pode lançar uma nova geração.
Pode ocupar cargos partidários.
Pode construir uma candidatura municipal e retornar ao cenário estadual.
O que 2026 encerrou foi a continuidade eleitoral que parecia natural.
A política não herdou o sobrenome
Esse talvez seja o maior significado da eleição.
O eleitor não recebeu a obrigação de manter determinada família no poder apenas porque ela esteve lá durante décadas.
Campos, Riva e Pinheiro construíram histórias políticas diferentes, com trajetórias, governos, mandatos e bases eleitorais próprias.
Mas a democracia tem uma característica simples e implacável:
mandato não é herança.
Pode existir tradição.
Pode existir estrutura.
Pode existir sobrenome.
Pode existir dinheiro.
Pode existir grupo político.
Pode existir história.
Mas, no fim, existe a urna.
E em 2026 a urna decidiu não renovar a representação eleitoral dessas três famílias.
O que começa depois do fim?
A pergunta agora não é apenas quem perdeu.
É o que essas famílias farão sem uma cadeira para chamar de sua.
Os Campos continuarão com sua influência construída principalmente em Várzea Grande e na política estadual.
Os Riva precisarão decidir se o projeto político terá continuidade por meio de Jéssica, Janaina ou de uma nova geração.
Os Pinheiro terão de reorganizar sua presença depois de oito anos de Emanuelzinho na Câmara e dois mandatos de Emanuel na Prefeitura de Cuiabá.
A política, porém, não termina quando o mandato acaba.
Às vezes, é justamente nesse momento que começa a reconstrução.
O fim de uma era ou apenas uma pausa?
A eleição de 2026 produziu uma fotografia histórica.
Pela primeira vez em décadas, os três sobrenomes que atravessaram diferentes gerações da política mato-grossense chegam ao próximo ciclo sem um representante eleito ocupando mandato estadual ou federal.
Isso não significa que Campos, Riva e Pinheiro deixaram de existir politicamente.
Significa que, pela primeira vez em muito tempo, precisarão fazer política sem a proteção institucional de uma cadeira.
E talvez seja justamente aí que esteja a verdadeira dimensão do resultado.
Durante décadas, a pergunta era:
qual integrante da família estará no poder?
Depois de 2026, a pergunta mudou:
essas famílias ainda conseguirão transformar influência em voto?
A resposta não está nos livros de história.
Está na próxima eleição.






